Paraná conclui que controle de transgênicos não funciona

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Levantamento do Estado afirma que milho transgênico contaminou outros plantios

Agnaldo Brito do Portal do Meio Ambiente

Maior produtor de milho do país teme efeitos sobre a exportação do Estado e pede ao Planalto mudanças para a safra de verão

A Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Estado do Paraná concluiu que as regras de segregação das lavouras de milho transgênico Bt determinadas pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) para todo o país não funcionam na prática. A conclusão do levantamento foi entregue ao governo federal pelo secretário paranaense de Agricultura, Valter Bianchini.

A resolução nº 4 da Comissão exige uma faixa de 20 metros entre uma lavoura de milho transgênico e outra convencional nas regiões onde predomina a pequena propriedade.

Depois de avaliar o resultado da primeira safra comercial de milho transgênico (a safrinha, na qual o Paraná colheu 4,7 milhões de toneladas -1,1 milhão de toneladas de milho geneticamente modificado), o maior produtor de milho do país concluiu que o governo federal foi incapaz de fiscalizar o cumprimento das regras de plantio definidas pela CTNBio. Mas, mais do que isso, o Paraná observou que as regras definidas pela comissão são ineficazes.

O material genético transgênico suplanta o perímetro de 20 metros entre as culturas e contamina lavouras convencionais. O resultado joga por terra a tese de que as regras garantem a convivência entre lavouras convencionais e transgênicas, uma das exigências da Lei de Biossegurança.

O milho tem o que os agrônomos chamam de polinização aberta, ou seja, uma planta pode ser fecundada pelo pólen de outra planta, transgênica ou não. Segundo a conclusão do Paraná, esse material genético viaja mais do que os 20 metros definidos como “seguros” pela CTNBio. De acordo com a Seab, “existem evidências das dificuldades em evitar a contaminação, mesmo cumprindo as distâncias estabelecidas [de espaçamento]“.

“As suspeitas foram confirmadas. Precisamos agora discutir com o governo federal formas mais eficientes de controlar e confinar o milho Bt. Uma das medidas é uma redefinição do espaçamento exigido hoje, é isso que queremos discutir agora com o governo federal”, disse Bianchini.

A reportagem da Folha havia revelado em maio a contaminação do milho convencional por material geneticamente modificado. Ao percorrer áreas produtoras do Paraná, a reportagem também revelou que cooperativas de produtores não teriam como colher, transportar e armazenar separadamente a produção transgênica da não transgênica.

A Seab confirmou agora na nota técnica a mesma conclusão. Com base nas alegações do Paraná, pode-se concluir que vários alimentos consumidos no país neste momento utilizam em sua composição milho transgênico sem o devido alerta nos rótulos, conforme determina a lei de biossegurança. “Essa hipótese se confirmou”, disse Bianchini.

O Paraná teme os efeitos que isso pode provocar na produção de frango e na exportação do produto, caso as autoridades não busquem minimizar os problemas no plantio da safra de verão, quando o Paraná pode produzir 9 milhões de toneladas de milho. No Paraná, a previsão é que o plantio do milho geneticamente modificado supere os 25% da safrinha.

A nota técnica foi enviada aos ministérios da Agricultura, do Meio Ambiente, da Saúde, da Justiça, do Desenvolvimento Agrário e para a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, também presidente do Conselho Nacional de Biossegurança -instituição com poderes para suspender a autorização de plantio comercial de milho transgênico no país. A nota também foi enviada à CTNBio, à Anvisa, ao Ibama e à Presidência da República. A Folha tentou falar com a Casa Civil, mas não obteve resposta.

A nota do Paraná é a primeira vinda de uma instituição pública condenando o modelo de plantio e controle do milho geneticamente modificado. Em junho, 86 organizações civis enviaram uma carta aberta à ministra Dilma solicitando a imediata suspensão da autorização para o plantio de milho transgênico no país. As alegações foram as mesmas apontadas agora pelo Paraná.

Não foi por falta de aviso. Acontece que as monsantos da vida enchem os bolsos dos políticos de dinheiro para liberar seu cultivo do inferno e todos pagamos o preço da corrupção do governo.

Bem fez o nosso governador Requião, que tentou fechar as portas de qualquer maneira para essas culturas frankenstein, que sabemos fazer mal para o planeta e para quem come, que só traz vantagem econômica para o agricultor nas duas ou três primeiras safras e depois é só prejuízo.

Estamos criando superpragas resistentes ao veneno em exagero aplicado no transgênico, nosso solo está ficando contaminado com este veneno, cânceres, alergias, novas doenças advindas destas culturas antinaturais, enfim, nada de bom advém das plantas transgênicas.

Quem ganha nesta brincadeira de mal gosto são somente as monsantos e quem perde é todo o planeta. Parabéns CTNBio, parabéns governo federal, vocês nos enchem de nojo, mostrando que são o que sempre soubemos que vocês são, uns vendidos. Ganham para liberar plantas transgênicas pensando no verde, no verde do dólares com os quais vocês foram comprados.

Superervas resistem ao herbicida glifosato usado na soja transgênica

Jornal Agora

amaranto por você.

Amaranto simboliza uma resposta evolutiva da natureza contra os organismos geneticamente modificados

Muitos agricultores nos EUA estão tendo que rever novamente seus conceitos com relação ao plantio de soja. A causa é, justamente, um produto que havia chegado para ser a solução do problema. A soja transgênica Roundup Ready, “turbinada” com um elemento herbicida chamado glifosato e que fora anunciada como imune às ervas daninhas, acabou gerando uma supererva resistente ao veneno.

Em 2004, agricultores com plantações próximas à Atlanta, na Georgia (EUA), começaram a notar que, embora com suas lavouras semeadas com Roundup Ready, alguns brotos de amaranto, mais fortes que o normal, começaram a se reproduzir em meio à soja. Desde então, o fenômeno tem se espalhado por outras regiões, como nos estados de Arkansas, Tennessee, Missouri e nas duas Carolinas.

Segundo um grupo de cientistas do Centro para a Ecologia e Hidrologia, organização britânica situada em Winfrith, Dorset, o problema aconteceu devido a uma transferência de genes entre a planta modificada geneticamente e algumas ervas indesejáveis como o amaranto. Essa constatação contradiz afirmações anteriores de que uma hibridização entre uma planta modificada geneticamente e uma não modificada seria simplesmente “impossível”.

Para o geneticista britânico Brian Johnson, especializado em problemas relacionados com a agricultura, “basta que aconteça somente um cruzamento, que pode ocorrer entre várias milhões de possibilidades. Uma vez criada, a nova planta possui uma enorme vantagem seletiva e se multiplica rapidamente. O potente herbicida aqui utilizado, à base de glifosato e amônia, tem exercido uma pressão enorme sobre as plantas, que por sua vez aumentaram ainda mais a velocidade de adaptação”. Dessa forma, um gene que adquiriu resistência ao veneno deu origem a uma nova espécie de planta, muito mais forte e difícil de eliminar, o que tem acarretado prejuízos aos agricultores, que são obrigados a abandonar as plantações ou usar pesticidas mais fortes e mais caros (como o paraquat).

Outras plantas que desenvolveram resistência ao herbicida da semente Roundup são a Lolium rigidum (na Astrália), o capim-pé-de-galinha (na Malásia), a erva-de-cavalo (nos EUS), o Lolium multiflorum (no Chile) e o dente-de-leão (na África do Sul).

Planta sagrada

O amaranto, que simboliza a resposta da natureza às ações do homem no campo da manipulação genética, era considerada uma planta sagrada na cultura inca. Sua grande carga proteica e larga capacidade de reprodução chamaram a atenção de pesquisadores do mudo todo. O grão de amaranto possui cerca de 15% de proteína (valor superior ao do trigo e do milho), cuja qualidade biológica pode ser comparada à do leite, já que é rico em lisina, um aminoácido essencial. Também apresenta alto teor de fibras em comparação a outros cereais como o trigo, o milho e a aveia. Em relação às gorduras, o amaranto possui alta porcentagem de ácidos graxos insaturados, considerados essenciais.

O amaranto pode ainda ser utilizado como fonte de zinco, fósforo e cálcio, elemento pouco encontrado em vegetais. Pesquisas recentes também têm mostrado que o amaranto é capaz de reduzir os níveis de colesterol em animais de laboratório.

Médicos pedem moratória aos transgênicos

O Eco de 03 de junho de 2009

A Academia Americana de Medicina Ambiental (AAEM), órgão que congrega profissionais da saúde de vários países do mundo, divulgou, em maio, um documento pedindo a moratória imediata de produtos transgênicos, por representarem “risco nas áreas da toxicologia, alergias, funções imunológicas, saúde reprodutiva, metabolismo, fisiologia e saúde genética”.

Além da moratória, a Academia também pede que sejam implementados imediatamente testes de segurança de longo prazo e etiquetação de produtos transgênicos, que profissionais da saúde alertem seus pacientes para os riscos e evitem alimentos geneticamente modificados, que eles considerem o papel destes alimentos nas doenças de seus pacientes e que sejam realizados mais estudos independentes de longo prazo para investigar o papel dos transgênicos na saúde humana.

Para conferir o documento, clique aqui.

Soja comum produz mais

Luiz Alvez

O Eco de 26 de junho de 2009

A Federação de Agricultura do Rio Grande do Sul e a Fundação Pró-Sementes divulgaram esta semana que a soja convencional produz em média 9% a mais que a variedade transgênica, com custos equivalentes de produção.

Os testes incidiram sobre 40 variedades transgênicas e 21 convencionais, em sete regiões do estado.

E ainda tem produtor iludido com certo canto da sereia.

Precisamos dizer mais alguma coisa?

Milho transgênico, quebra de safra

Safa Daneshvar

Veja de 24 de junho de 2009

O Brasil só começou a colher milho transgênico neste ano, e a nova cultura já corre risco de extinção. Alguns dos maiores compradores do grão não querem saber de transgênicos.

É o caso da Kellogg´s e da PepsiCo, que pediram ao presidente da associação dos produtores de grãos convencionais, César Borges de Souza, garantia de suprimentos anuais de 200.000 toneladas.

As empresas não querem ser obrigadas a aplicar em seus produtos o selo T, que discrimina os produtos transgênicos.

A população ainda não entendeu a extensão de seus poderes, naquilo que pode ser chamado de O CONSUMIDOR É O REI.

Se nós, consumidores, rejeitarmos qualquer produto, ele será remodelado, serão trocados ingredientes indesejados, as embalagens serão modificadas, as sobreembalagens deixarão de existir, enfim, nós determinamos o que a indústria deve produzir, mas, infelizmente, no Brasil, as pessoas são extremamente passivas e não conseguem enxergar a extensão de seu poder.

Nós podemos mudar o mundo, mas temos que nos engajar em causas relevantes para o futuro da humanidade, mostrar para o governo, para a indústria, para o varejo, o que realmente queremos. Infelizmente as pessoas engajadas não correspondem nem a 1% da população e por isso as mudanças são tão lentas.

É só ver este caso do milho transgênico. Contra todas as regras de segurança, contra o princípio da precaução, contra o conselho dos ambientalistas e pesquisadores, apenas para embolsar os milhões que as empresas frankenstein distribuem para o país que aceitar seu produto maléfico, o governo bêbado da lula lelé, após negociatas a portas fechadas que envolveram cifras astronômicas, liberou o plantio deste milho, que após poucas colheitas usa muito mais veneno que o milho convencional por causa do aumento da resistência das pragas ao defensivo, que após a terceira colheita já rende muito menos que a cultura convencional, que destroi a biodiversidade, que contamina o solo com seu veneno letal.

Neste caso eles ganharam os milhões das empresas frankenstein mas o consumidor internacional, que não aceita esta aberração que é o transgênico, mudou o rumo da indústria, que também não aceita este milho e agora o agricultor vai ter que também voltar atrás e plantar o milho tradicional. Só não sabemos em quanto tempo ele conseguirá fazer isso, porque as sementes de uma safra ficam no chão, brotando no meio da próxima safra e contaminando a cultura convencional com os grãos da morte. Imagine o prejuizo causado ao agricultor pelo governo, ao incentivar o plantio deste grão transgênico? Quem irá pagar a conta? O agricultor, claro, porque o governo está com o bolso cheio e agora o problema não é mais eles.

Erga sua voz, exprima suas opiniões, cada habitante deste planeta tem direito a ser ouvido e cada voz dá mais força a cada movimento que quer mudar este planeta, assegurando um mundo melhor para nós e nossos descendentes.

Só não fique calado, na sua zona de conforto, porque seu silêncio pode significar diferença entre um futuro melhor para todos e a extinção.

Os transgênicos pelo mundo – eles voltam à pauta

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O Estado de São Paulo

O Voltou ao terreno da polêmica, nas últimas semanas, no Brasil e em vários outros países, o complexo tema dos alimentos transgênicos. Principalmente por causa do veto do governo alemão ao plantio e comercialização de uma variedade de milho geneticamente modificado, com o argumento de que prejudica polinizadores e outras espécies. Por isso, o princípio da precaução, previsto na Convenção da Diversidade Biológica, justificaria a proibição,  já acompanhada por vários outros países, entre eles França, Grécia, Luxemburgo, Áustria, Hungria. Justificaria também a exigência de um estudo prévio de impacto ambiental.

Essa variedade de milho já foi aprovada no Brasil pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), sem necessidade do estudo de impacto, que o Ministério do Meio Ambiente pedia, mas foi dispensado pela comissão, que não precisa mais de maioria de dois terços, como antigamente, para tomar decisões (após vários embates, o quórum foi reduzido, por decisão do governo federal, para maioria simples dos 28 membros). E a polêmica está de volta, inclusive porque, neste momento de ameaça de pandemia da gripe suína, a França também aprovou o rótulo “alimentado sem transgênico” para produtos animais.

Não bastasse, um jornal argentino publicou estudo do Laboratório de Embriologia Molecular da Universidade de Buenos Aires que aponta a toxicidade do glifosato (o agrotóxico a que resistem plantios transgênicos) para embriões de anfíbios. E o Ministério da Defesa daquele país proibiu o plantio de soja transgênica em seus cultivos, ao mesmo tempo que a Associação de Advogados Ambientalistas pedia na Justiça a proibição de comercializar o glifosato. Já o cientista-chefe do Organic Center publicou trabalho para mostrar que as sementes resistentes ao glifosato reduzem o consumo de herbicidas (sua principal vantagem) durante dois a três anos, apenas; depois, perderiam sua eficácia.

No Brasil, trabalhos publicados pela AS-PTA alegam que no planalto norte de Santa Catarina o milho não modificado se mostrou na última safra muito mais lucrativo que o transgênico. No Rio Grande do Sul está na Justiça processo em que agricultores se negam a pagar royalty de 2% à empresa produtora de sementes de soja transgênica. Outros resistem ao arroz modificado. Em Alagoas, apicultores pedem judicialmente indenização pela contaminação de suas colmeias pelo pólen de milho transgênico plantado nas imediações.

Há duas semanas, em debate promovido pelo curso de Gestão Ambiental na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba (SP), o professor Paulo Kageyama, que já foi diretor de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente e é membro da CTNBio, fez exposição minuciosa sobre as inconveniências de liberar variedades transgênicas sem obedecer ao princípio da precaução (que o Brasil, signatário da Convenção da Biodiversidade, obrigou-se a respeitar), como aquele órgão tem feito para soja, algodão, milho e outras espécies. A seu ver, há muitas incertezas e impactos negativos a serem estudados, inclusive para a agricultura familiar, que responde pela maior parte dos produtos alimentares consumidos no Brasil (82% da mandioca, espécie mais adequada aos solos brasileiros, sem insumos químicos, da qual se pretende aprovar uma variedade transgênica; 58,9% do feijão; 43,1% do milho; 41,3% do arroz , além de 55,4% do leite, 59% da carne suína). Em sua opinião, a pressão das empresas do setor, assim como da área de agrotóxicos, além da predominância absoluta de membros do Ministério da Ciência e Tecnologia (20 em 28) na CTNBio, têm impedido uma avaliação mais rigorosa. Para justificar seu pensamento analisou vários casos no Brasil e no exterior. Outro risco seria a abolição, que está sendo reivindicada, da exigência de identificação dos transgênicos no rótulo de alimentos industrializados que os contenham.

Seus argumentos, principalmente o da pressão de empresas, foram contestados com veemência pela representante do Conselho de Informações sobre Biotecnologia, Alda Luiz Lerayer, que ressaltou a dificuldade que órgãos ambientais teriam para analisar possíveis impactos no plantio de variedades transgênicas, o Ibama teria levado quatro anos no caso do feijão, por exemplo. E apontou o alto índice de adesão dos agricultores brasileiros às variedades modificadas. O próprio milho, de aprovação mais recente, já teria sido plantado por 30% deles na última safrinha e deverá chegar a 50% nas próximas safras. A soja transgênica, segundo as notícias mais recentes, já está em mais de 60% da área cultivada.

Outros expositores também chegaram a colocar na mesa mais problemas, como o da “monocultura de genes”, já que todas as espécies modificadas e aprovadas contêm o mesmo gene, para serem resistentes ao mesmo defensivo. Ou o de o Brasil ser hoje, também por essa razão, o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Ou o da exigência de distância entre as plantações de milho transgênico e as convencionais haver sido reduzida de 400 para 100 metros. E chegou até a entrar em discussão o primeiro caso de transgênico aprovado pela CTNBio, no governo anterior, quando o Ministério do Meio Ambiente, depois de haver anunciado que votaria pela exigência de estudo prévio de impacto, votou a favor da liberação incondicional. Na ocasião, divulgou-se, sem contestação, que a decisão partira da própria Casa Civil da Presidência, depois de pressionada por um senador, que alegava o risco de ser cancelado um investimento de centenas de milhões de dólares que seria feito pela empresa produtora do defensivo ao qual seria resistente a semente transgênica.

Por muitos caminhos, portanto, a discussão está de volta. E merece ir adiante, para que se possam seguir os melhores rumos, num tema tão decisivo para a sociedade, a ciência e a economia.

Washington Novaes

Soja convencional do PR vira transgênica na hora da colheita

Gazeta Mercantil de 27 de Abril de 2009

A aplicação de sementes de soja convencional na lavoura não foi suficiente para que alguns produtores colhessem grãos livres de transgenia na última safra. No Paraná, aqueles que tentaram honrar contratos antecipados foram surpreendidos com o resultado positivo para transgênicos no teste feito no ato da entrega. Com isso, tiveram que amargar prejuízo por causa do pagamento pelos royalties e desconto do prêmio, cuja média é de R$ 2 pela saca.A Perdigão confirmou que foram encontrados traços de transgenia em cargas pontuais entregues no Paraná. Segundo a companhia, a soja foi devolvida, pois 100% dos animais da empresa são alimentados com grãos convencionais. No entanto, não foi informado o volume das cargas rejeitadas.

O manejo inadequado nas empresas de semente seria o principal canal de contágio na cadeia produtiva, conforme informações de uma fonte do Paraná que preferiu não se identificar. “A falta de limpeza nas máquinas e no beneficiamento está causando isso. Dessa maneira, o produtor é obrigado a pagar royalties para a Monsanto, que é a maior fornecedora na região. Se continuar assim, daqui a algum tempo não haverá mais soja convencional”, observou.

Iwao Miyamoto, presidente da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), reconheceu que houve contaminação: “A poeira do grão pode contaminar o convencional. Por isso, é preciso avaliar se a colheita foi adequada”. Segundo disse, o contágio também pode ter ocorrido durante o transporte. O Ministério da Agricultura, responsável pela fiscalização, afirmou desconhecer as denúncias.

A Monsanto informou que a possibilidade de a contaminação ocorrer no campo é pequena e que os testes no recebimento da soja não têm precisão para identificar baixos níveis de soja transgênica em cargas de grãos convencionais. A declaração revela que a empresa não acredita que a semente fosse mesmo convencional.

Não querendo pregar teorias conspiratórias, mas ao que parece a Monsanto está arranjando um jeitinho de ganhar os Royalties mesmo de quem não planta transgênico.

Isso parece ser uma tática orquestrada para desestimular o agricultor a plantar a soja tradicional, que está cada vez mais valorizada no mercado internacional, pagando prêmios cada vez maiores por saca de soja convencional.

Até o presidente da COAMO, maior cooperativa da América do Sul, que era um fã ardoroso dos transgênicos agora traiu a monsanto e declara seu amor incondicional à soja convencional, claro, por causa da diferença de preço que está cada vez maior entre os dois tipos de cultura, não pense que ele está preocupado com a vida das pessoas que alimentam com seus produtos, preocupado com a bioversidade, preocupado com a humanidade, nada disso, e só interesse comercial, ou seja $$$.

Ouça esta entrevista que ele deu à rádio CBN.

Coamo – Cooperativa de Campo Mourão está premiando os agricultores que plantam soja convencional

O transgênico tropeça: países europeus proíbem sua produção

Ecodebate de 22 de abril de 2009

Novos estudos científicos nos EUA e na Europa levantam dúvidas sobre a segurança e a eficiência dos cultivos geneticamente modificados. A Alemanha é o sexto país da União Europeia que os proíbe. A Espanha lidera a produção no continente com 75% do total.

A reportagem é de Cristina Castro, publicada no jornal El País, 18-04-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A aparição de novos estudos sobre os possíveis efeitos adversos do cultivo de transgênicos para o meio ambiente estão semeando dúvidas na comunidade internacional. Dois relatórios sobre danos a várias espécies de insetos serviram para que Luxemburgo e Alemanha vetassem formalmente o cultivo desses produtos em seu território. Além disso, um recente estudo nos EUA alerta sobre o fracasso nas pretensões sobre o aumento da produtividade, argumento sobre o qual a defesa dos transgênicos se baseou em parte, especialmente em países em desenvolvimento, como uma solução para contribuir com a erradicação da fome.

A Alemanha agitou a polêmica na terça-feira ao anunciar que passava a ser o sexto país da União Europeia a proibir em seu território o cultivo de organismos modificados geneticamente (OMG). Une-se assim à Áustria, Grécia, França, Hungria e Luxemburgo (mais Itália e Polônia, que também não os permite de fato, porque têm moratórias) em proibir o cultivo do milho MON 810, único OMG cuja semeadura é permitida na União Européia e do qual a Espanha monopoliza 75% da produção, com quase 80 mil hectares.

Desde que a UE autorizou o cultivo, a importação e o consumo do MON 810 em 1998 (mediante a Diretiva 2001/18/CE), os países puderam se amparar na “cláusula de proteção”, um procedimento que a lei reserva para que um país possa alegar novos conhecimentos científicos sobre riscos ao meio ambiente ou à saúde para “restringir ou proibir provisoriamente o uso ou a venda desse OMG em seu território”.

Os países que se amparam nessa cláusula têm que remeter os informes sobre os quais baseiam sua decisão à Comissão Europeia, que encarrega as análises e as avaliações à Agência Europeia de Segurança Alimentar (EFSA), e seria de acordo com estes que a Comissão Europeia poderia obrigar o país a levantar a proibição. Até agora, a EFSA não encontrou base científica suficiente em nenhum dos informes. Na última ocasião, em fevereiro, tanto a EFSA quanto a agência francesa se pronunciaram negativamente sobre os relatórios apresentados pela França, afirmando que não encontravam nenhum risco ambiental ou de saúde na produção do MON 810. Os relatórios apresentados pela Alemanha e Luxemburgo, publicados em 2008, ainda não foram transmitidos à EFSA, afirmou Josep Casacuberta, membro do painel de transgênicos da agência. “Quando se publica um novo artigo, a comunidade científica o debate. Agora, teremos que ver esses novos relatórios, mas, até agora, não houve nenhum que tenha trazido dados conclusivos sobre riscos ao meio ambiente ou à saúde”.

Os estudos, publicados na revista Archives of Environmental Contamination and Toxicology, falam dos danos produzidos pela pulga d’água Daphnia magna e pela joaninha Adalia bipunctata. Ambos os estudos realizados em laboratório para a primeira espécie constatam, em uma alimentação realizada exclusivamente à base de milho MON 810, um aumento do risco de mortalidade e das capacidades de amadurecimento sexual. No caso da joaninha, o estudo foi realizado em estados de imaturidade (larvas) e observa, em determinadas concentrações, um aumento da mortalidade. Não obstante, ambos os estudos se mostram muito cautos em suas conclusões e sugerem a necessidade de novas pesquisas.

O MON 810 é modificado geneticamente mediante a introdução de uma proteína que repele a broca, um inseto da praga que mais afeta o milho e que se encontra sobretudo na Espanha e mais concretamente na zona do Delta del Ebro, onde há mais hectares de cultivo (um terço de tudo o que se produz na UE). Esse OMG está patenteado pela multinacional Monsanto.

Segundo Pere Puigdemont, pesquisador do Grupo de Ética das Ciências e das Novas Tecnologias da UE, o Centro Superior de Investigações Científicas (CSIC) junto com a Universidade de Lérida realizaram pesquisas para vigiar o impacto do cultivo do MON 810 sobre outros insetos. “Não se puderam demonstrar efeitos adversos, muito pelo contrário, já que não é necessário usar muitos inseticidas, e isso favorece a biodiversidade”, afirma o pesquisador.

As organizações ecológicas não têm a mesma opinião, pois estimam que o cultivo dos transgênicos supõe “uma grande experiência com a humanidade, já que não conhecemos a capacidade real da extensão e da multiplicação desse gene”, afirma Tom Kucharz, porta-voz dos Ecologistas en Acción.

Deixando de lado o risco de danos ambientais ou à saúde, é interessante o estudo “Failure to Yield”, de Doug Gurian-Sherman, da Union of Concerned Scientist, uma reconhecida organização norte-americana de cientistas preocupados com os temas ambientais. Nele, Gurian-Sherman tenta desmistificar as pretensões de aumento da produtividade que, desde o começo, giraram em torno aos transgênicos. O relatório assegura que, em 20 anos de investigações e 13 de comercialização no EUA, os OMG que toleram herbicidas não conseguiram um incremento da produtividade e que este foi marginal nos resistentes a insetos (como o MON 810).

Apesar das promessas das indústrias, o autor de “Failure to Yield” assegura que o incremento no rendimento deveu-se aos avanços nas técnicas agrícolas mais do que às propriedades dos transgênicos. O informe diz que o milho BT (como é conhecida a modificação genética do MON 810) conseguiu incrementar a produtividade ao redor de 3% ou 4% nesse país, após 13 anos de cultivos. O relatório concluiu que a produtividade também pode aumentar por meio de técnicas de caráter ecológico e pede que as autoridades fomentem esse tipo de cultivos, sobretudo em países em desenvolvimento.

A empresa que possui a patente do MON 810, a multinacional Monsanto, recebeu a autorização para comercializá-lo na Europa em 1998 e agora está em tramitação para obter uma prorrogação por mais uma década. “É um processo complexo”, assegura Jaime Costa, diretor de Assuntos Regulatórios da empresa. “Entregamos os relatórios no final de 2007 e estamos pendentes da sua resposta”.

A multinacional se defende de seus muitos detratores assegurando que a regulamentação europeia é muito estrita e que é cumprida com todos os estudos e acompanhamentos exigidos. Costa apela à segurança do produto com um dado. “Entre os anos de 2003 e 2007, houve 62 alertas e notificações de segurança alimentar pela presença de microtoxinas no milho: 43 foram de cultivo convencional, 19 ecológicos e nenhuma foi produzida no milho transgênico”.

Na Monsanto, a decisão da Alemanha causou “surpresa”, e eles não descartam a opção de tomar “medidas jurídicas” contra a proibição. Costa esgrime: “Estamos preocupados porque as coisas estão sendo feitas à margem da estrita regulamentação existente”. O diretor da empresa defende que “não pode ser que na Europa, onde se cultiva 0,3% do milho em escala mundial, se notem em primeiro lugar os efeitos adversos e não nos EUA ou em outros países onde se cultiva de forma massiva”.

Pere Puigdemont estima que a decisão alemã, um país que cultiva pouco o produto (cerca de 3.600 hectares), “está motivada por pressões políticas, porque não há base científica que justifique a proibição”. É certo que, mesmo que a EFSA (e, em alguns casos, as agências dos próprios países, como a francesa no último mês de fevereiro) tenha concluído que não existiam danos, a agência é apenas um órgão consultivo, e teriam que ser os países membros, por meio de um acordo, que obriguem a revogação a cláusula, algo que até agora as posições enfrentadas impediram.

O secretário de Estado do Meio Rural e Marinho, Josep Puxeu, foi duro nesta semana com relação ao veto dos países da UE: “Como exportadora, a França adoraria que a Europa tivesse que se abastecer exclusivamente em seu mercado”. Sobre a Alemanha, Puxeu afirmou que “eles não têm a praga” e “estão suficientemente dotados com a sua produção”.

O setor agrícola também está, por sua parte, dividido. Carlos Ferrer, presidente da Associação de Jovens Agricultores (ASAJA) de Huesca e vice-presidente da Associação de Produtores de Milho, é partidário dos OMG: “Se temos que competir com os produtos de fora, queremos jogar com as mesmas oportunidades”. Ferrer disse que a sua associação não entra em temas científicos, “porque as pesquisas devem ser feitas por quem lhes corresponda”. Porém, acrescenta: “Não podemos ficar no último vagão da biotecnologia e deixar de ser competitivos”.

Não são da mesma opinião os grupos de agricultura ecológica. Víctor Gonzálvez, presidente da Sociedade Espanhola de Agricultura Ecológica aplaude a decisão da Alemanha, da qual espera que “faça com que o governo entenda que não é uma questão de progressismo, mas sim uma questão de dúvidas, e deve-se aplicar o princípio da precaução”. Gonzálvez disse que a sua associação não conta com dados sobre cultivos, mas que, nos últimos anos, eles se dividiram “por três ou quatro”.

A principal queixa dos produtores ecológicos vem pela questão da chamada “coexistência” entre os cultivos do OMG e ecológicos. O problema está na possível dispersão do pólen do milho transgênico para cultivos ecológicos, polinizando estes últimos e, portanto, impossibilitando sua catalogação como tais. Puigdemont assegura que ficou demonstrado que 25 metros de separação são suficientes para que não exista risco de mistura, mas os ecologistas denunciam que não há garantias.

Nesse sentido, muitos países já têm a distância regulada que deve existir entre as diferentes plantações, algo que ainda não se fez na Espanha, apesar de ter sido denunciado muitas vezes em 2005. O secretário de Estado do Meio Rural, Josep Puxeu, declarou nesta semana que o governo espanhol “pede que a UE adote uma posição para o cultivo, porque, se há algum problema de coexistência, que defina quais são as regras do jogo”. O El País tentou muitas vezes e em vão perguntar a respeito da regulamentação na Espanha.

A confusão sobre os transgênicos vem, em parte, da contradição existente entre as restrições ao cultivo e o silêncio sobre a importação e o consumo, o que é outra grande preocupação para os agricultores. O presidente da ASAJA critica: “Querem colocar travas ao cultivo, quando a Europa importa por ano 50 milhões de toneladas de soja transgênica, que, se não a tivéssemos, não haveria gado”. Puxeu também se pronunciou nesse sentido: “Não quero entrar no campo cientifico, mas muitos e muitos produtos como o pão, os fermentos, os vinhos, os queijos, a insulina dos diabéticos estão elaborados com produtos transgênicos, que parece que estamos demonizando os avanços da biotecnologia”.

A incerteza que esses produtos geram provoca, por exemplo, que quase a totalidade da produção do MON 810 seja dirigida à elaboração de rações, e que a maioria das empresas se abstenham de utilizá-la para consumo humano, apesar de estar autorizado. A normativa da UE obriga a etiquetação dos produtos elaborados com transgênicos, algo que é insuficiente para as organizações ecológicas: “Pedimos que se controlem também os animais alimentados com transgênicos”, diz Kucharz.

A luta contra os transgênicos, liderada desde sempre pelas organizações ecológicas, mesmo que apoiada por outros grupos, ganhou mais força nesta semana, motivada pela decisão da Alemanha. Embaixadas e consulados da Espanha em vários países da Europa foram cenário de protestos na quinta-feira, e para este sábado estava prevista uma manifestação em Zaragoza, à qual se uniram muitos grupos, como as associações de consumidores. A União dos Consumidores (UCE) lamentou recentemente que, enquanto que a maior parte dos países do entorno comunitário tendem a proibir a produção de OMG, “na Espanha seguem sendo cultivados em grande escala”. A Confederação de Consumidores e Usuários se expressou na mesma linha e exigiu “mais pesquisas, transparentes e públicas”.

O arroz transgênico da Bayer em debate. O Brasil vetará?

IRRI Images

JMA

Entrevista especial com Gabriel Fernandes, da campanha brasileira contra os transgenicos.

Recentemente, a audiência pública encarregada de discutir a liberação do cultivo de arroz transgênico no Brasil votou a favor da população, da saúde e do meio ambiente, recusando a plantação nas lavouras brasileiras. Segundo o agrônomo Gabriel Fernandes, “a maior parte dos membros da CTNBio é favorável à liberação dos transgênicos e defende por princípio que a engenharia genética é segura”. Apesar de manter essa posição, depois de ouvir integrantes da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Comissão rejeitou o produto.

O debate representa uma vitória para os combatentes da transgenia, pois, depois de liberados no meio ambiente, não há como controlar os transgênicos. Como a soja e o milho, o arroz geneticamente modificado também pode infectar outras culturas do alimento, explica o pesquisador. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Fernandes destaca que, caso tivesse sido liberado, o arroz transgênico iria “contaminar o arroz vermelho, tornando-o também resistente ao herbicida da Bayer”. Além disso, destaca, iria afetar “outros parentes silvestres que ocorrem no território brasileiro”. O arroz vermelho cultivado no Rio Grande do Sul já é resistente ao herbicida Only, da Basf, e, caso fosse liberado o arroz da Bayer, corria-se o risco de “ter arroz vermelho resistente aos dois herbicidas, o que seria um desastre para os produtores”, aponta.

Para Fernandes, as técnicas de liberação dos transgênicos pela CTNBio são ineficientes, pois carecem de pesquisas independentes. Antes de autorizar a comercialização de produtos geneticamente modificados, deve-se “alimentar animais de diferentes idades por algumas gerações e por períodos significativos. É necessário usar os grãos obtidos diretamente da planta transgênica, simulando condições reais de consumo”, aconselha. Em breve, adverte, a “cana-de-açúcar e o eucalipto transgênicos estarão predominando a pauta de liberações da CTNBio e efetivarão a convergência dos transgênicos com os agrocombustíveis”.

Ainda não houve nenhuma decisão a respeito da liberação do arroz da Bayer. A votação será na CTNBio, mas ainda não se sabe exatamente quando. A audiência serviu apenas para debater o tema e colher opiniões de diferentes setores.

Gabriel Fernandes é engenheiro agrônomo formado pela Universidade de São Paulo (USP), e desde 2000, atua como assessor técnico da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, ONG voltada para a promoção do desenvolvimento sustentável da agricultura brasileira com base nos princípios da agroecologia e no fortalecimento da agricultura familiar. Tem especialização em Agroecologia e desenvolvimento rural sustentável, pelo Centro Agronómico Tropical de Investigación y Enseñanza (CATIE), e em Fundamentos holísticos para avaliação e regulamentação de organismos geneticamente modificados, pelo Instituto Norueguês para Ecologia do Gene (Genok), Universidade de Tromso, Noruega.

Transgênicos não!

IHU On-Line – Como o senhor percebe o debate em torno da liberação de arroz transgênico, principalmente a postura defendida pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio) nesse sentido?

Gabriel Fernandes – A maior parte dos membros da CTNBio é favorável à liberação dos transgênicos e defende por princípio que a engenharia genética é segura. Assim, seria de se esperar que o arroz transgênico também fosse liberado. Acontece que a audiência pública realizada na semana passada, em Brasília, mostrou que até a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) – que defendem os transgênicos – se posicionaram oficialmente contrárias à liberação do arroz modificado. É de se esperar agora que a CTNBio fique menos à vontade para liberar o produto.

IHU On-Line – O arroz modificado desenvolvido pela transnacional Bayer é resistente ao glufosinato de amônio, herbicida proibido em vários países. Qual é sua opinião sobre esse tipo de arroz? A resistência ao glufosinato de amônio quer dizer que há o que inserido no genoma do produto?

Gabriel Fernandes – Se aprovado, este produto iria introduzir resíduos de mais um agrotóxico em nossa alimentação – no caso em nosso arroz e feijão de todos os dias –, já que o glufosinato não é aplicado na cultura do arroz. O que precisamos na verdade são de técnicas de manejo que reduzam e eliminem o uso de venenos, e não de genes que tornem as plantas resistentes aos agrotóxicos. As empresas têm nas sementes transgênicas um meio de ampliar seu mercado de venenos, tanto é que três de cada quatro hectares plantados no mundo com transgênicos são de plantas que foram geneticamente modificadas para resistir à aplicação de herbicidas. É preciso lembrar que as seis maiores multinacionais da agroquímica são também as seis maiores sementeiras do mundo e que juntas controlam metade do mercado global de sementes. No caso do arroz da Bayer, foram inseridos genes que imitam genes encontrados em uma bactéria nativa dos solos, que é tolerante ao glufosinato de amônio.

IHU On-Line – Na Europa, o glufosinato de amônio foi considerado carcinogênico, mutagênico e tóxico a reprodução. Além disso, a substância é apresentada como de risco aos mamíferos. Diante dessas informações, como compreender a aceitação do Brasil desses produtos?

Gabriel Fernandes – Há vários exemplos de produtos banidos em outros países, às vezes nas sedes das próprias empresas, mas que continuam sendo vendidos em países em desenvolvimento. As instituições alegam que fazem isso porque as legislações desses países permitem. Mas há uma diferença entre o limite ético e o limite permitido, como bem analisou o jornalista Wilson da Costa Bueno em artigo recente disponível aqui.

Hoje, no Brasil, há um grande embate jurídico das empresas de agrotóxicos apoiadas pelo Ministério da Agricultura contra a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que quer reavaliar a toxicidade dos produtos que estão no mercado. Há muitos interesses em jogo.

IHU On-Line – Por que no Brasil a liberação de produtos transgênicos ocorre sem a constatação de segurança?

Gabriel Fernandes – Uma nova lei de biossegurança foi criada para que isso pudesse ocorrer. A fórmula usada foi dotar a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (Ministério de Ciência e Tecnologia) de superpoderes. Lá estão doutores que usam de sua posição acadêmica para chancelar os dados apresentados pelas empresas. Há contestação feita dentro da CTNBio, mas os argumentos técnicos são sempre vencidos no voto. Quando o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Anvisa contestaram a CTNBio, acionando os ministros do Conselho Nacional de Biossegurança, ouviram como resposta da ministra Dilma Roussef que era para não incomodarem a Comissão. A partir de então, a CTNBio vem liberando um transgênico atrás do outro.

IHU On-Line – Que informações são cruciais do ponto de vista da biossegurança? Que aspectos a CNTBio deveria considerar antes de liberar produtos transgênicos?

Gabriel Fernandes – O importante é ter estudos independentes que avaliem as plantas transgênicas nos ambientes onde elas serão cultivadas. Do ponto de vista ambiental, deve-se mapear as relações ecológicas da planta com os ecossistemas e avaliar como a modificação irá afetar essas relações. No que se refere à saúde, deve-se alimentar animais de diferentes idades por algumas gerações e por períodos significativos. É necessário usar os grãos obtidos diretamente da planta transgênica, simulando condições reais de consumo. Muitas vezes, realizam apenas ensaios de laboratório com proteínas sintéticas que se presume serem iguais as que a planta transgênica irá produzir. Esse método desconsidera a forma como a planta reage a cada ambiente, e também ignora resultados imprevisíveis resultantes da modificação genética, que podem fazer com que o resultado final seja diferente do esperado.

IHU On-Line – A soja e o milho transgênico contaminam outras lavouras. No caso do arroz geneticamente modificado, quais são os maiores riscos ambientais?

Gabriel Fernandes – A experiência mostra que não há como controlar os transgênicos depois que eles são liberados no meio ambiente. No caso do arroz, a contaminação irá afetar o arroz vermelho e potencialmente outros parentes silvestres que ocorrem no território brasileiro. A audiência pública deixou explícito que, caso liberado, o arroz transgênico irá contaminar o vermelho, tornando-o também resistente ao herbicida da Bayer. Pior, como já há muito arroz vermelho no Rio Grande do Sul resistente ao herbicida Only, da Basf (aplicado em um arroz modificado por mutação gênica), o risco é ter arroz vermelho resistente aos dois herbicidas, o que seria um desastre para os produtores, como alertou o pesquisador da Embrapa que participou da audiência.

IHU On-Line – Empresas que produzem transgênicos dizem que as plantas Bt, como o milho liberado no Brasil, são resistentes a insetos. Por outro lado, pesquisadores explicam que essas são plantas inseticidas, pois tem um inseticida inserido no seu genoma. Ao ingerir esses alimentos, quais são os riscos para a saúde humana?

Gabriel Fernandes – O argumento usado é o de que a proteína inseticida presente na bactéria é segura e, portanto, sua versão sintetizada e introduzida na planta também o será. Isso é o que mais se ouve na CTNBio. Fosse isso, não seriam necessários estudos, e nem a própria Comissão. Essa visão desconsidera as imprecisões dos métodos empregados pela transgenia e o fato de que, junto com o gene de interesse, também são inseridos na planta genes de bactérias e vírus infecciosos. Isso porque o gene de interesse sozinho não teria efeito sobre a planta hospedeira. Para funcionar, ele precisa de alguns “aditivos”. As pesquisas independentes apontam para os potenciais impactos dessa combinação, como geração de novas proteínas alergênicas, desenvolvimento de resistência a antibióticos e, mais recentemente, de redução da fertilidade.

IHU On-Line – Apenas na primeira safra, quase 60% do milho será transgênico. Nesse ritmo, corre-se o risco de acabar com as sementes tradicionais?

Gabriel Fernandes – As estimativas não são certas e a indústria tende a exagerar nas cifras para dar a entender que a tendência é essa. De qualquer forma, a liberação do milho transgênico é alarmante e sua adoção pelos produtores está se dando de forma acelerada. O drama é que não se vê movimentos e organizações do campo mobilizados para esse enfrentamento. No caso da soja transgênica é evidente: o monopólio fala mais alto do que as vantagens tecnológicas da semente, ou seja, como não se acha mais semente convencional no mercado, prevalece a da Monsanto. Se nada for feito, acontecerá o mesmo com o milho, só que de forma mais acelerada.

IHU On-Line – Com a invasão de transgênicos, que futuro podemos vislumbrar para o Brasil nos próximos anos?

Gabriel Fernandes – A questão é saber quem controlará a produção de alimentos: meia dúzia de multinacionais ou milhões de agricultores? O desafio é político e envolve massificar a agricultura familiar e garantir seu acesso à terra, água e biodiversidade. O projeto das empresas é o oposto, de privatização e exploração monopólica dos recursos naturais. Para reverter essa tendência, as políticas púbicas deveriam ser redirecionadas para fortalecer a sustentabilidade e autonomia da produção familiar. Infelizmente não é isso o que temos visto.

IHU On-Line – Que novos produtos devem ser alvos da transgenia?

Gabriel Fernandes – Em breve, cana-de-açúcar e o eucalipto transgênicos estarão predominando a pauta de liberações da CTNBio e efetivarão a convergência dos transgênicos com os agrocombustíveis

Interesse da Bayer não é o arroz transgênico, mas sim o agrotóxico

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JMA de 03 de abril de 2009

Aumento na contaminação do meio ambiente e alimentos com mais agrotóxico na mesa do brasileiro. Estes são alguns dos prejuízos que seriam gerados pelo arroz transgênico trazido pela transnacional Bayer ao país e que teve sua primeira prova de fogo em uma audiência pública realizada no último dia 18, em Brasília.

Até mesmo entidades ligadas ao agronegócio, geralmente favoráveis aos geneticamente modificados, se colocam contrárias à liberação do arroz transgênico. Na entrevista a seguir, o coordenador da Campanha de Transgênicos da organização não-governamental Greenpeace, Rafael Cruz, fala sobre os interesses econômicos que estão em jogo na não-aprovação da variedade, que não é plantada em nenhum outro país. Também questiona o real motivo que fez a Bayer levar o arroz para avaliação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).

Transgênicos no prato da minha família não!

Quais são os riscos do arroz transgênico à população?

Primeiro de tudo, ele aumenta o risco de resíduos de agrotóxico. Quando for plantado, a idéia é que o agricultor possa aplicar sobre ele o herbicida, fazendo com que as ervas daninhas, no caso o arroz vermelho que é considerado erva daninha do arroz branco aí no RS, morra e o arroz transgênico permaneça intacto porque ele é resistente. O agrotóxico que vai ser aplicado é o glufosinato de amônio, que é um tipo de agrotóxico cuja patente é do próprio proponente do arroz, ou seja a Bayer, e quando é aplicado tem aquela propriedade que a gente chama de sistêmica. A morte da planta, digamos assim, é de dentro pra fora e não de fora pra dentro. A planta absorve isso [o agrotóxico], joga o tóxico no sistema circulatório e morre. As plantas que não são resistentes ao herbicida morrem; as que são, ficam com resíduos de agrotóxico em seu sistema circulatório, o que significa em toda a planta, não somente na sua superfície.

E para os agricultores?

Outro perigo que é paralelo e potencializa esse primeiro é o fato do arroz vermelho, que é a “erva daninha” – entre aspas porque no Nordeste ele é base alimentar de muita gente, no Sul é que ele não é apreciado – tende a ganhar resistência ao agrotóxico também. Porque na primeira safra, tudo bem, mas na segunda safra já houve cruzamento do arroz branco com o vermelho.

Então esse cruzamento entre espécies vai espalhar a propriedade de agrotóxico no aroz vermelho também. O que o agricultor vai acabar fazendo?

Vai aplicar mais agrotóxico porque ele não vai conseguir matar aquele arroz vermelho. E aí tem o que muita gente chama de “super erva daninha”, que é uma erva daninha resistente. Isso, no campo, a gente vê que não soluciona o problema do agricultor, que quer eliminar o arroz vermelho e, por outro lado, faz com que o agricultor aumente o nível de agrotóxico aplicado e, com o passar do tempo, a tecnologia tende a ser ineficiente. A exemplo do que já acontece aí no RS com o arroz mutagênico, da Basf. Resumindo essa história, são dois perigos que se complementam: aumento de agrotóxico no prato do consumidor e contaminação ou cruzamento de transgênicos com não-transgênicos o que, além de reduzir a biodiversidade, aumenta o problema para o próprio agricultor.

Entidades ligadas ao agronegócio, que geralmente defendem os geneticamente modificados, são contrárias à liberação do arroz transgênico. A que tu atribui essa mudança de posicionamento?

Não tem mercado para quem quer vender arroz transgênico. No Brasil o debate não está popularizado, ainda falta esse debate cair no colo do consumidor. As pessoas não sabem o que são transgênicos. Fora do Brasil, não existe mercado para o arroz transgênico. Os Estados Unidos sabem disso, os produtores norte-americanos se posicionam contrários à produção do arroz transgênico lá. Não é por questão ideológica, é porque eles acham que por não haver aceitação, e já que eles exportam 60% do arroz que produzem, eles não preferem não se arriscar a morrer com toda a produção. E o Brasil, que quer se tornar um grande exportador, tem que observar isso. Atribuo a essa questão o próprio posicionamento da Federarroz contrária ao plantio de arroz transgênico.

Na tua avaliação, por que a Bayer insiste na variedade se não há apoio nem dos setores do agronegócio?

É bem arriscado falar ao certo. A Bayer é a única que está propondo arroz transgênico hoje no Brasil. E a empresa está tentando crescer no mercado de transgênicos, que hoje é dominado pela Monsanto. Se ganhasse esse mercado de arroz no Brasil teria uma vitória, não somente no país, mas fora também. Acho que o que eles querem, bem no fundo, é aumentar o mercado de agrotóxico deles. A Bayer é a maior empresas de agrotóxicos no mundo. E conseguir empurrar aqui o arroz transgênico, que não é mais nutritivo, não é resistente ao estresse hídrico ou a qualquer outro tipo de problema que o agricultor enfrenta. Ele é simplesmente resistente a um herbicida que a Bayer produz. Não sei o que a Bayer quer: ou vender transgênico ou vender agrotóxico. Ou os dois.

Estás satisfeito com a atuação da CTNBio?

Eu acho que o governo federal deu muito poder nas mãos da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança [CTNBio], principalmente depois da última reunião em junho onde saiu o posicionamento de que não mais acataria questionamentos da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] e do Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente] no que diria respeito em relação às decisões da CTNBio. Com esse superpoder, além de ser um desequilíbrio inaceitável, porque além de colocar a biossegurança do país nas mãos de 14 cientistas, que é o quórum mínimo lá. São 14 pessoas que decidem o que 180 milhões de pessoas irão consumir.

O debate sobre o arroz transgênico na CTNBio será longo?

O que a gente está esperando é que a CTNBio decida logo sobre isso. Espero que seja analisada e uma decisão seja tomada em relação a esse transgênico. O que não dá é ficar esperando a poeira baixar e, depois, voltar com esse assunto esquecendo de todos os questionamentos que já foram feitos na audiência pública, que foi o local em que as pessoas diretamente afetadas por isso puderam falar.